Estamos para iniciar a Semana Santa, tempo que a Igreja nos oferece para intensificar nossa comunhão com o Senhor Jesus, através da contemplação e da celebração de seu mistério pascal. O intuito não é outro senão aquele de formar Cristo em nós (cf. Gl 4,19), inserindo-nos no dinamismo fecundo de sua vida doada por amor.

A seguir, apresentamos breves resumos do sentido espiritual de cada dia que compõe a Semana Maior, de modo que possamos vivenciá-la iluminados pela Palavra de Deus, nutridos pela Liturgia e inspirados pela piedade popular. E o fruto maduro que esperamos colher é o de uma crescente conformidade com Jesus Cristo, que nos convida a tecer laços de fraternidade e paz neste mundo ferido pelo egoísmo e pela violência.

Domingo de Ramos

Iniciamos a Semana Santa. Com ramos nas mãos, aclamamos “aquele que vem em nome do Senhor”, humilde, despojado, sereno, decidido a dar a vida por amor, num gesto de soberana liberdade. Eis a razão pela qual Jesus se mantém silencioso diante de seus acusadores: sua defesa é sua própria fidelidade, a integridade de sua vida, a coerência entre suas palavras e ações. O Pai o conhece e o sustenta.

De Jesus, Messias-Servidor, aprendemos que não há nada mais importante do que uma consciência reta e um coração generoso, porque a vida só cresce e amadurece na medida em que se doa.

Segunda-feira Santa

Perto de Jerusalém, sentindo o peso da perseguição, Jesus de Nazaré faz uma parada em Betânia, calorosamente acolhido pelos amigos. Estes parecem não temer o perigo. Aprenderam a ser livres como o Mestre, livres para amar e servir. O gesto silencioso e audaz de Maria, irmã de Marta e Lázaro, recorda a Jesus a unção recebida do Pai e o conforta com o bálsamo e a fragrância de um amor sincero e puro.

Diferente é o sentimento que move Judas, em busca de si mesmo, dissimuladamente voltado para os próprios interesses. O Filho de Deus prossegue sua marcha. A semente lançada não se perderá, porque jamais deixa de frutificar a vida que se entrega na liberdade do amor. O Pai saberá o que fazer.

Terça-feira santa

Ao redor de Jesus, a noite se faz mais densa. A traição se insinua, comovendo o Mestre e desconcertando os discípulos. Mesmo amado e escolhido, Judas se deixa invadir pelo mal, afastase do Senhor e dos irmãos e se põe a executar o que lhe interessa. Pedro se mostra valente, mas, pouco depois, não resistirá à tentação de negar aquele por quem se dizia disposto a dar a vida. O discípulo amado se mantém ali, reclinado sobre o peito do Mestre, tentando perscrutar seu coração.

Em meio a tudo isso, Jesus se reconhece glorificado pelo Pai e pronto a glorificá-lo. Glória de um amor que não se deixa vencer pela infidelidade e pela negação dos seus. Glória de uma vida que se torna plena enquanto se doa.

Quarta-feira santa

Hoje, em nossas Comunidades, é o dia do Encontro. Encontro entre o Senhor dos Passos sofridos e a Senhora das Dores solidárias. Encontro entre o amor que se oferece e o amor que fortalece. E o que dizer de nossos encontros? Comunicam paz? Infundem esperança? Geram alegria? Sabemos encontrar os outros em suas necessidades e sofrimentos? E o que temos a oferecer àqueles a quem encontramos? Uma presença inspiradora? Uma palavra que conforta? Um gesto que encoraja?

Aprendamos do encontro de hoje. A fidelidade de Jesus foi revigorada na compaixão de sua Mãe. Como nos ensina o Papa Francisco, a “revolução da ternura” não se faz sem a “cultura do encontro”.

Quinta-feira santa

Recordamos, hoje, a instituição da Eucaristia, sacramento do amor que se faz serviço. Naquela ceia de despedida, Jesus se põe a lavar os pés de seus discípulos, revelando a surpreendente novidade de seu mistério e a dinâmica do amor que deve distinguir seus seguidores: inclinar-se sobre os outros, colocar-se à disposição de todos e de cada um, para, assim, atingir a estatura do Mestre e Senhor, a liberdade de um amor sem medidas.

É nessa luz que se deve compreender o ministério dos sacerdotes, cuja instituição se liga à celebração de hoje. O padre nada mais é do que um homem que ama e serve, que se doa e perdoa, um pobre que enriquece, um pecador que reconcilia, porque nada do que lhe foi dado pode ser retido. Sua vida é dom, é pão repartido, prolongamento da Eucaristia.

Sexta-feira santa

Hoje, não precisaríamos multiplicar palavras, tamanho o mistério que nos envolve ao contemplar a paixão e morte do Senhor. O amor feito serviço no lava-pés agora se entrega na cruz. E o faz livremente para dizer-nos que fomos reconciliados e salvos por um amor sem limites. O Crucificado tomou sobre si nossas dores e dramas, sofrimentos, angústias e esperanças. Nada deixou de ser redimido.

Desde então, ninguém pode se sentir abandonado e só. Com sua morte, Cristo desceu às nossas solidões, dissipou nossas trevas, afugentou nossos medos. E, nesta sexta-feira, nós nos colocamos aos pés de sua cruz, com Maria, sua mãe, e com aqueles que se mantiveram fieis até o fim. Vendo-o crucificado, tomamos consciência do muito que recebemos e de tudo o que ainda nos cabe fazer para corresponder a um amor assim tão grande.

Que saibamos colocar-nos ao lado dos crucificados da vida, com a solidariedade do Cireneu, com a compaixão das discípulas, com a serena fortaleza de Maria.

Sábado Santo

Um grande silêncio envolve a Terra. Entrando nas sombras da morte, o Filho de Deus desceu ao abismo mais profundo da existência. Àqueles que decidiram seguir Jesus de Nazaré, a cruz parecia ter sido o trágico fim da vida, da esperança e do amor. Um inaceitável fracasso! Triunfo do pecado e do mal que conduziram ao absurdo da morte a quem só fez o bem.

Mas este não poderia ser o fim daquele a quem o Pai haveria de ressuscitar, fazendo-o derrotar toda negatividade do coração humano e do mundo. Na noite santa de hoje, a luz dissipa a escuridão, o louvor rompe o silêncio, a solidão é povoada, a beleza e a bondade reflorescem, a vida desponta em todo seu esplendor.

O Cristo Ressuscitado abriu-nos o caminho do amor eterno, da paz que não passa, da esperança que não decepciona, da vitória final. À luz da fé, quanto mais densa é a noite, mais promissora é a aurora que germina em seu seio.

Domingo da Ressurreição

Cremos em ti, Senhor Jesus Cristo,
tu que por nós deste a vida.
Cremos que, ressuscitado,
vives eternamente na glória do Pai
e, pela força de teu Espírito,
acompanhas nossos passos vacilantes
neste mundo de trevas e luz.

Tua Ressurreição é a novidade
que não envelhece,
a mão estendida que nos levanta,
o bálsamo que cura nossas feridas,
o consolo que nos acalma,
a brisa que seca nossas lágrimas,
a melodia que nos encanta,
a paz que nos revigora,
a fragrância que perfuma o mundo,
a palavra definitiva do amor

Hoje, pedimos somente
a graça de viver contigo,
aquecidos por tua companhia,
confortados por tua amizade,
despertando novas auroras
de Ressurreição,
em nós e ao nosso redor,
até que, na eterna luz em que habitas,
nossas escuras noites se convertam
em claro dia.

Vinícius Augusto Teixeira, C.M.

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