A ecologia em tempos de Peter Pan

por | jun 23, 2022 | Formação, Reflexões | 0 Comentários

O adulto 4.0, inebriado de si mesmo e caracterizado pelo mito da eterna juventude, é consumista, egoísta, autorreferenciado e voraz no consumo dos recursos disponíveis.

O mais recente livro de Armando Matteo Converter Peter Pan – o destino da fé na sociedade da eterna juventude, traduzido para português pela Paulinas Editora e com prefácio de Dom José Cordeiro, Arcebispo de Braga, apresenta-nos o diagnóstico do adulto de hoje a partir da figura de Peter Pan, o menino que se recusa a crescer. A mudança de época que atravessamos, de que fala o Papa Francisco, traz uma nova sensibilidade de vida e de pensamento completamente distintos do passado, fruto de um aparelho tecnocientífico e de novos horizontes de sentido herdados de Nietzsche, Marx, Darwin e ainda Freud, que implementaram novas instâncias do humano, plenamente impregnadas no cidadão ocidental. O adulto 4.0, apresentado por Armando Matteo, encontra-se “sem mais nada acima e além de si próprio”, caracterizando-se pela liberdade e unicidade, sem transcendências, verdades, limites, moral e política.

A mudança epocal que atravessamos coincide com a mudança climática e ambiental para a qual o clamor da Terra nos chama à atenção. O adulto 4.0, inebriado de si mesmo e caracterizado pelo mito da eterna juventude, é consumista, egoísta, autorreferenciado e voraz no consumo dos recursos disponíveis. O mercado e o comércio alimentam este paradigma oferecendo um consumo imediato e desenfreado. O resultado deste horizonte de sentido está à vista de todos: uma sobrecarga sobre o planeta Terra, que a partir de 28 de julho passará a viver a crédito ambiental. A partir dessa data estamos a consumir recursos que só deveriam ser utilizados a partir de 1 de janeiro. O cenário torna-se ainda mais negro quando falamos de países ocidentais, marcados por um consumismo desmedido. A título de exemplo, o dia da sobrecarga da Terra em Portugal foi a 7 de maio.

A Encíclica Laudato Si’ sobre o cuidado da casa comum (LS) do Papa Francisco alertava já para as consequências da atual situação do mundo que favorece formas de egoísmo coletivo. “Em tal contexto, parece não ser possível, para uma pessoa, aceitar que a realidade lhe assinale limites; neste horizonte, não existe sequer um verdadeiro bem comum. Se este é o tipo de sujeito que tende a predominar numa sociedade, as normas serão respeitadas apenas na medida em que não contradigam as necessidades próprias.” (LS 204). Perante este cenário, o Papa Francisco apresenta como caminho a educação para a aliança entre a humanidade e o ambiente, como um desafio educativo, que vá além de uma mera «cidadania ecológica» assente na informação, sem maturar hábitos. O desafio é partir de motivações adequadas para uma transformação pessoal nos vários âmbitos educativos, como sejam a escola, a família, as comunidades, os meios de comunicação, as religiões, as universidades e as instituições. Urge, portanto, a necessidade de uma educação integral, que nos coloque em contacto com a essência do ser humano e que eduque para a fraternidade, o bem comum e a justiça intergeracional, categorias essenciais na fundação de uma ética social promotora de uma ecologia integral. O apelo à solidariedade e a opção preferencial pelos pobres implica a busca pelo bem de todas as pessoas, não só individualmente, mas também na dimensão fraterna e social que as une, sem descurar as gerações futuras. “Se a terra nos é dada, não podemos pensar apenas a partir dum critério utilitarista de eficiência e produtividade para lucro individual. Não estamos a falar duma atitude opcional, mas duma questão essencial de justiça, pois a terra que recebemos pertence também àqueles que hão-de vir” (LS 159).

Este desafio educativo torna-se uma emergência educativa na medida em que precisamos de libertar os adultos do mito da eterna juventude e dar lugar ao que Armando Matteo designou por Homem manso. A mansidão é expressão de maturidade e é capaz de “converter toda aquela potência de vida, aquela liberdade, aquele sentimento de disponibilidade da própria existência e sobre a própria existência” numa disponibilidade fraterna promotora de um futuro melhor e digno para todos, que permita restituir à humanidade a sua vocação primordial, o tomar a seu cargo os problemas, dificuldades e sofrimentos alheios.

Ricardo Cunha
Fonte: https://www.padresvicentinos.net/

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