Acompanhando a viagem de um refugiado. O que escutamos? Quais ações vamos colocar em prática?

por | jul 19, 2022 | Formação | 0 Comentários

A segunda Conferência Internacional da Aliança Famvin com os sem-teto aconteceu em Sevilha de 7 a 9 de junho. A realidade dos refugiados, dos deslocados internos e do tráfico de pessoas foi discutida de forma longa e calma. O texto a seguir é um resumo das discussões e das perspectivas para o futuro.

À medida que chegamos ao fim da nossa Conferência, cada um de nós segue com seus próprios pensamentos e reflexões sobre o que viu e ouviu durante os últimos três dias.

Nossas experiências são pessoais e individuais.

Mas, como nos lembrou a Irmã Carol ontem, também levamos para nossa casa os pensamentos uns dos outros.

Então, talvez, possa compartilhar meus pensamentos, o que poderia fazer com que reflitam por um momento sobre o que todos temos escutado.

Para mim, o trabalho desta Conferência e, por sua vez, o trabalho de nossa Família Vicentina no acompanhamento dos refugiados, começa com as mulheres e os homens que encontramos no caminho.

Reunimo-nos com o jovem de Camarões, Andrés, que compartilhou sua trágica história de vida em seu país e como as Irmãs Vicentinas despertam esperança aqui na Espanha.

E nos comoveu a coragem de Feith, da Nigéria, que suportou muito em sua curta vida, mas agora é a orgulhosa mãe de três crianças pequenas.

Alguns de nós nos reunimos com as pessoas dos projetos ontem pela tarde e Sarah nos falou da coragem de um jovem de 16 anos e de sua determinação de começar uma nova vida para ajudar sua família que ficou para trás.

Nosso trabalho, e esta Conferência, tem sentido na vida das pessoas que encontramos no caminho.

Em sua homilia de abertura, Monsenhor Vitillo falou sobre a importância de levar em conta tanto as dimensões espirituais como as soluções técnicas, à medida que assumimos o desafio de acompanhar os refugiados. E, em suas boas-vindas, Irmã María del Carmen nos pediu que tocássemos o coração de todos, para acompanhar cada refugiado em nosso caminhar juntos. Animou-nos a abrir os olhos para a realidade de nossa sociedade e para criar pontes entre ricos e pobres.

O Padre Robert Maloney nos recordou a herança vicentina de cuidar dos refugiados e migrantes, começando com a guerra na Lorena, no século XVII, e continuando até os dias de hoje. O Padre Maloney nos recorda que somos parte deste legado, o que se torna inspirador, fortalecedor e que me faz sentir mais humilde. E, como temos visto nas histórias de nosso trabalho, a Família Vicentina não se acovarda diante do desafio.

Como sempre, o Padre Maloney se baseou nas experiências passadas para traçar diretrizes para o futuro, e faremos bem em prestar atenção a suas cinco esperanças ao dar nossos próximos passos.

Monsenhor Vitillo nos recordou que a Sagrada Família viveu a vida dos refugiados. E chamou a atenção para o antigo e universal valor do acolhimento como expressão de nossa humanidade comum. Estes valores estão ameaçados e é necessário um trabalho árduo nas Nações Unidas e em outros fóruns para estabelecer marcos, sempre motivados pela Doutrina Social da Igreja, para defender estes direitos humanos básicos. Aprendemos sobre o plano de 20 pontos que engloba o marco e sua simplificação em quatro verbos: Acolher, Proteger, Promover e Integrar.

E escutamos sobre outra pessoa no caminho: a mulher síria que teve que enterrar seu filho na Terra Santa antes de poder seguir com sua vida.

Não seria uma verdadeira Conferência sem um trabalho em grupo! E aproveitamos o tempo para discutir o que tínhamos ouvido e o que queríamos ver para o futuro. Os ricos resultados foram capturados por Yasmine e por seus colegas.

Na segunda de tarde, enfrentamos a dura realidade da migração forçada:

  • O Padre Joel falou sobre muitos temas, inclusive sobre o trabalho forçado e sobre as indústrias extrativistas, mas pintou um quadro de esperança na Vila de Solidariedade da Melanésia.
  • A Irmã Francely falou sobre a resposta à erupção vulcânica na Guatemala e sobre como as próprias comunidades nos estão guiando no caminho até a recuperação (Elas nos mostram o caminho).
  • Às vezes, as dimensões nos superam e a história dos migrantes de Tigray é um exemplo disso (4,5 milhões foram obrigados pelo conflito a abandonar suas casas). A Irmã Hiwot nos disse como a Família Vicentina, trabalhando unida, gera esperança e se fortalece através da colaboração.
  • A escala do desastre na Ucrânia também é enorme: 6,5 milhões de refugiados e 8 milhões de migrantes. O Padre Vitaliy, tendo visto tudo pessoalmente, descreveu a situação das pessoas que corriam para escapar. Mas também falamos sobre os traumatizados e os desesperados, e como os mais pobres entre os pobres são aqueles que permanecem no país de residência e agora são atendidos pela Família Vicentina.
  • Matthew nos lembrou que todas as pessoas têm os mesmos sonhos, tanto em Londres como em Alepo. Sonham com teto, comida, educação para suas famílias. Uma vida melhor. Um simples instinto humano.

A partir desta sessão, compreendi melhor como podia acompanhar um refugiado: a importância da linguagem, da mensagem (segurança, esperança) e do desafio: Como anunciar a Boa Nova aos outros em meio a uma tragédia?

Começamos, na quarta pela manhã, com algumas palavras inspiradoras de Yasmine, baseadas nas discussões do dia anterior.

O painel sobre tráfico de pessoas nos proporcionou uma série imensa de desafios emocionais e intelectuais:

  • Irmã Olivia falou sobre a prática desumana de tratar uma pessoa como um objeto. E nos mostrou como estes 4 verbos sobre os quais escutamos podem ser colocados em prática para curar as vítimas em Gana e na Nigéria, e como o projeto Kumasi se encaixa na Campanha das 13 Casas, uma história colaboração vicentina.
  • Já mencionei a história de Feith, e não creio que algum de nós possa esquecer o que ela nos contou de sua experiência. Importa-nos que tenha sobrevivido e prosperado, mas estamos motivados para fazer mais, sabendo que muitos outros não têm tanta sorte.
  • Que maravilhoso e inspirador testemunho da Irmã Magdalena! Ela nos lembra que, ao acompanhar os refugiados em suas viagens, estamos pisando em terra sagrada. Temos que andar com cuidado. E voltamos a escutar histórias individuais. Mireia, de 15 anos, em um campo de treinamento, e Lovad, com seu novo bebê. Aqueles que tiveram a sorte de visitar os projetos ontem viram outro testemunho do trabalho da Irmã Magdalena e de suas irmãs. Deus está realmente presente em seu trabalho.
  • Mick Clark explicou o vínculo entre a falta de moradia e a escravidão moderna e o trabalho de The Passage em Londres para abordá-lo. Mick nos lembrou, como disse São Vicente: falar pouco e fazer mais.
  • A Irmã Sally nos deu um panorama geral ao abordar a questão de como a sociedade pode deixar de tratar as pessoas como mercadorias. Um sistema econômico informado pela Doutrina Social da Igreja mostra o caminho e nos ajudará a enfrentar a globalização da indiferença. A Irmã Sally esboçou a resposta vicentina e todos faríamos bem em refletir sobre estas medidas em nosso próprio trabalho.

Tivemos o privilégio de escutar o Padre Baggio, CS falar sobre seu trabalho no Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral, e sobre o especial interesse que o Papa Francisco tem na causa dos migrantes e refugiados. A cultura do encontro nos desafia a pensar em novas formas de abordar a pergunta: Como posso realmente acompanhar o refugiado em sua viagem? Quais mudanças eu mesmo preciso fazer?

“A vida é a arte do encontro”. “O estrangeiro é o amigo que ainda não conheço”.

Inteiramo-nos de que o Dicastério publicou um documento sobre como dar as boas-vindas aos refugiados à comunidade paroquial. Nós também devemos pensar sobre isso?

Desafios para criar uma nova vida com Irmã Petra, da Eslováquia, e com David de Depaul Irlanda. A viagem continua, inclusive, quando chegam a um novo país, chamou-me a atenção a rapidez da resposta às necessidades. Oito irmãs acolheram refugiados na fronteira entre a Eslováquia e a Ucrânia, desde o começo da crise. Depaul Ireland garante que os refugiados recebam uma afetuosa recepção. Escutar as necessidades dos recém-chegados e pressionar o governo em seu nome.

Foi bom tomar tempo para a Reflexão Apostólica ao final de nosso segundo dia, e compartilhamos nossa inspiração e afirmação pelo trabalho da Família Vicentina de diferentes maneiras.

“Nossos corações ardem dentro de nós”.

Em seguida, o espetáculo mudo, depois das partilhas dos projetos, foi um verdadeiro ponto culminante de nosso tempo juntos. O patetismo autêntico e o poder de dramatizar a viagem de um refugiado com todas as suas provações e tribulações. A energia pura e a alegria dos jovens agora livres para levar uma vida melhor. Felizmente para eles, as Filhas da Caridade de Sevilha fazem um excelente trabalho, apoiando essas pessoas que chegam à Espanha!

Na quinta de manhã, escutamos Rhea, que foi refugiada e agora é trabalhadora de ajuda humanitária. Referindo-se a sua experiência pessoal, expressou como se sentia estar desenraizada “física, mental, espiritualmente”. Como podemos questionar os direitos dos refugiados de buscar uma vida melhor? Falou sobre o racismo estrutural: Há diferença em nosso tratamento com os refugiados ucranianos em comparação com os que chegam de outras partes do mundo? Nosso sentido de privilégio e superioridade ao pensar que sabemos as respostas melhor que os próprios refugiados. Devemos ser conscientes de nós mesmos e escutar. Não impor, mas sim deixar-se guiar.

Em nosso último painel, vimos como as pessoas “lidam com a adversidade”. Sarah, do Líbano, nos lembrou que, às vezes, não é fácil dar as boas-vindas aos refugiados. O Líbano é um país bonito, com gente maravilhosa, mas agora necessita de ajuda humanitária. Não têm os recursos para acolher os outros. Que podemos fazer para ajudar os países que suportam demasiada carga? São amiúde esquecidos ou deixados de lado? Como podemos advogar para que recebam um tratamento justo?

Tony, assim como a Irmã Sally anteriormente, assinalou a hipocrisia e a injustiça de dar as boas- vindas aos imigrantes como uma mercadoria. Precisamos deles para ganhar benefícios, mediante salários baixos, mas lhes negamos o direito de ficar e construir uma vida. Destacou o terrível tráfico de crianças abandonadas, que viola todas as convenções de direitos humanos.

Jim falou sobre a importância da defesa e o uso de todas as plataformas possíveis para mudar o discurso sobre os refugiados. Necessitamos contar sua história e desafiar as suposições falsas. Devemos levar os refugiados às mesas de poder e deixar que falem por si mesmos, como planejamos fazer nas Nações Unidas, em junho de 2023.

Jack nos lembrou os horrores dos refugiados migrantes e como, inclusive na terra, restringimos seus direitos de viver, trabalhar e prosperar. Entretanto, logo passou a mostrar como a Família Vicentina na Austrália oferece comunidade, inclusão, respeito e um lugar seguro de acordo com a Doutrina Social da Igreja. Também como podemos pressionar com êxito o governo para conseguir mudanças.

Com base no que temos escutado de vocês e na capacidade organizativa da Famvin Homeless Alliance, proporemos levar a cabo sete ações a partir desta Conferência.

  • Ajudaremos construir uma rede de vicentinos que trabalham com refugiados e migrantes. Em apoio a este objetivo, desenvolveremos uma série de seminários online e compartilharemos kits de ferramentas de melhores práticas online. Estes também abordarão temas transversais como o tráfico de pessoas, a mudança climática, etc.
  • Começaremos um programa que ajudará a desenvolver a capacidade de mudanças em nível local, utilizando as melhores práticas existentes dentro e fora da Família Vicentina. Também desenvolveremos um mecanismo para alimentar nossas experiências coletivas em nível local em campanhas de promoção global mais ampla, por exemplo, a ONU e a EU, trabalhando com outros cooperadores e redes.
  • Nós vamos assegurar que nosso exercício de mapeamento global da Família Vicentina se estenda àqueles que trabalham com refugiados e migrantes e os convidaremos para participarem de nossos fóruns.
  • Trabalharemos em colaboração com a Oficina da Família Vicentina e os superiores da Família Vicentina em nível internacional para garantir que estaremos melhor preparados para responder em casos de desastre, mediante a criação de um protocolo e marco conjunto que garanta uma ação coordenada.
  • Proporcionaremos kits de ferramentas e seminários online para compreender melhor como Laudato Si e Fratelli Tutti poderiam colaborar com nosso trabalho e, em particular, com a cultura do “encontro” e do “acompanhamento”.
  • Ajudaremos cada membro da Família Vicentina a desenvolver “Projetos da Campanha 13 Casas”, destinados a apoiar os refugiados e migrantes.
  • Continuaremos respondendo à Família Vicentina organizando Conferências (como esta) sobre temas específicos. No próximo ano, em Manila, focaremos nos moradores de bairros periféricos.

Muito obrigado a todos por sua participação.

Mark McGreevy, OBE
Grupo Depaul

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