Um vicentino mais experiente, com 20 ou 30 anos dentro da entidade, por exemplo, pode achar que não tem mais nada a aprender ou a descobrir, e que por isso não precisa comparecer às Festas Regulamentares nem aos cursos de formação e atualização oferecidos pela Escola de Capacitação Antônio Frederico Ozanam (ECAFO). Ele considera que já sabe “quase tudo” e seu papel na SSVP restringe-se às visitas aos Pobres, levando bens materiais e uma palavra amiga, se possível junto com uma oração.

Mas se engana por completo quem pensa que “chegou ao topo” e não tem mais nada a aprender. Temos que ser humildes e reconhecer que aprendemos coisas novas todos os dias. Cada novo sermão meditado na santa missa, por mais que já tenhamos ouvido aquela passagem bíblica dezenas de vezes, pode trazer um enfoque diferente e até revelador, mesmo para os mais velhos. Ou seja, depende de nós a vontade em assimilar aspectos diferentes para que, ao final, possamos incorporar tais elementos em nossa vida pessoal e em nossa conduta vicentina.

Foi pensando assim que um dia desses – há pouco tempo, sejamos francos – enxerguei uma verdade que demorei muito a perceber. Todas as vezes que citamos a expressão “rede de Caridade” para designar a SSVP, cunhada e profetizada por Ozanam, queremos geralmente nos referir ao trabalho de Caridade, coordenado e eficiente, que as Conferências e as Obras (Unidas e Especiais), em rede, realizam em favor dos Pobres. Isto é, uma rede de voluntários e de talentos ao serviço da Caridade.

Mas, em realidade, existe uma “segunda rede de Caridade” no seio da SSVP, que nem sempre compreendemos ou nos damos conta de sua existência. O que vou aqui enfatizar pode parecer trivial para muitos, mas reconheço que nunca tinha analisado sobre este ângulo. Quero mencionar a rede de Caridade que existe entre nós, confrades e consócias, no cotidiano da entidade. Se não existisse essa tal “segunda rede de Caridade”, não seria possível a existência das Conferências. Senão, vejamos.

Sem a Caridade entre os vicentinos, as Conferências não se manteriam unidas há tanto tempo. Sem ela, talvez não houvesse tanto respeito entre as pessoas e nem a capacidade de perdão. Sem a Caridade entre nós, as Conferências não seguiriam a hierarquia do amor que faz a SSVP funcionar em prol do assistido. Sem a segunda rede de Caridade, não haveria organização e os Pobres não receberiam a assistência que hoje recebem. Em outras palavras, essa rede de Caridade interior, doméstica, não seria viável – nem factível – a outra rede, exterior, para com os Pobres.

Vocês já pararam para pensar desta forma? Eu levei muito tempo para compreender isso com clareza e transparência. E hoje entendo muito bem as ações da Providência Divina nos abençoando e nos ajudando a sustentar as duas redes de Caridade, a interior e a exterior. Uma rede depende da outra para existir. Uma Conferência não fará um bom trabalho se não houver Caridade entre seus membros. E um grupo formado por pessoas pouco amistosas culminará com a promoção de ações meramente assistenciais, nunca caritativas.

Por isso, reflitamos como andam as duas redes de Caridade de nossa Conferência, rogando a Deus que ambas estejam como São Vicente e Ozanam gostariam.

Renato Lima de Oliveira
16º Presidente Geral da Sociedade de São Vicente de Paulo

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