Um assunto recorrente nas reuniões das Conferências e que desafia os vicentinos em geral é a questão de dar esmolas aos pobres. Todos sabemos que essa prática é aconselhada pela Santa Igreja e há inúmeras passagens bíblicas recomendando a vivência desta obra de misericórdia. Mas São Vicente nos “provoca” quando diz: “Não basta dar esmola de passagem, é preciso retirar os pobres de sua condição de miserabilidade”.

Um trecho contido nos Atos dos Apóstolos (capítulo 9, versículo 36) narra a história de Tabita, considerada uma seguidora exemplar e que, após doença e morte, voltou a viver pela intercessão da oração de São Pedro: “Em Jope, havia uma discípula chamada Tabita. Esta era rica em boas obras e nas esmolas que dava”. O que houve com Tabita já estava previsto em outra parte bastante contundente do Antigo Testamento: “A esmola livra da morte, apaga os pecados e faz encontrar a misericórdia e a vida eterna” (Tobias 12, 9). E Jesus vai além: “Vendam tudo o que possuem e deem esmolas” (Lucas 12, 33).

Portanto, encontramos muitas passagens nas Sagradas Escrituras sobre o tema. Porém, a Igreja vem afirmando que precisamos estancar a miséria, e não perpetuá-la. Quando as pessoas dão esmolas nas ruas, geralmente estão querendo livrar-se dos pedintes, dando apenas um paliativo, não resolvendo a questão, só aliviando o sofrimento de forma momentânea. Não há mudança de estruturas nem solução dos problemas de fato, como deveria ocorrer.

É por isso que a discussão sobre dar ou não dar esmolas mexe sensivelmente com cada confrade e consócia que atua na Sociedade de São Vicente de Paulo. Como devemos agir? Sabemos que a esmola não resolve o problema do pobre, mas a Igreja estimula sua prática. Como agir, então? Melhor mesmo é implementar uma ação perene, integrada, organizada e realmente saneadora, que seria justamente a assistência prestada pela SSVP, até que as pessoas socorridas possam, com suas próprias pernas e o suor do seu trabalho, caminhar na vida de maneira autônoma e digna.

Em outras palavras: dar esmolas é um ato de caridade que ajuda, mas não resolve. Devemos continuar dando esmolas, com critérios, é claro. Mas o que vai de fato resolver a questão da pobreza é uma ação de promoção humana integral, aliada ao acesso a emprego, saúde e educação. Juntos, esses elementos trazem de volta a dignidade à pessoa humana, resgatando-a da miséria e inserindo-a no contexto social em que vivemos.

Não podemos reduzir a caridade cristã a apenas fatos materiais, como “dar de comer aos famintos e de beber aos sedentos”. A caridade é também moral, e não implica gasto de nenhum centavo. Porém esta última é a mais difícil de ser praticada. Saber ouvir (numa sociedade surda), interceder com orações (quando as pessoas não têm mais tempo para orar), perdoar sem limites (num cenário vingativo e violento) e tolerar atitudes inadequadas das pessoas (num mundo recheado de preconceitos e discriminações) são, por exemplo, atos de caridade meritórios (“esmolas virtuais”) que não custam nada e fazem uma enorme diferença. Reflitamos.

Renato Lima de Oliveira
16º Presidente Geral da Sociedade de São Vicente de Paulo

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