Um dos grandes desafios na vida de cada confrade e de cada consócia é, sem dúvida, saber conciliar os trabalhos vicentinos com as demais atividades cotidianas, próprias da vida de cada um. O vicentino tem que ter o discernimento para saber equilibrar sua atuação missionária com os compromissos de sua família, de seu trabalho, de sua paróquia, entre tantos outros.

É comum ouvirmos que certos vicentinos dão mais atenção aos assuntos relacionados à conferência e ao conselho, deixando para segundo plano a vida familiar, educacional e até profissional. Isso não é desejável, uma vez que o convívio familiar é a base da sociedade civil, e uma pessoa não pode ser verdadeiramente feliz se não encontrar a felicidade em sua família. Um vicentino experiente já dizia: “a SSVP se contenta em ocupar o terceiro lugar em nossas vidas, depois de Deus e da família”.

Por outro lado, se não dermos o melhor de nós em favor do dia-a-dia das conferências e dos conselhos, as atividades vicentinas em prol dos mais necessitados e na superação da fome e da miséria poderão murchar e, devagarzinho, minar a gratuidade e solidariedade que movimentam nossa “grande rede de caridade”. Ou seja, temos que dar conta de nossas vidas pessoais e, ao mesmo tempo, zelar para que a SSVP continue transformando a realidade excludente que assola nosso país.

E aqui vai um recado às consócias, em especial àquelas que tiveram a bênção de serem mães: vocês desempenham uma dupla tarefa, pois são solicitadas em casa e no trabalho, tendo que superar desafios nas 24 horas do dia. Vocês, que ainda são consócias, são realmente vitoriosas, e merecem todo o nosso aplauso. É na docilidade das consócias que as conferências têm obtido muitas conquistas.

Por fim, é importante lembrar o apelo que o inesquecível papa João Paulo II fez aos vicentinos, em audiência especial concedida em fevereiro de 2001, quando afirmou que “é necessário ter uma nova imaginação de caridade”. Já o presidente mundial da Sociedade de São Vicente de Paulo, cfr. José Ramon Díaz-Torremocha, defendeu que todos os confrades e consócias deveriam ser “vicentino nas 24 horas do dia”. O “vicentino 24 horas” é aquele que cumpre todas as obrigações previstas na Regra e leva para sua vida pessoal o carisma de Ozanam e de São Vicente: a caridade ininterrupta, a humildade e a solidariedade.

A caridade começa em casa. Só podemos ser verdadeiramente vicentinos se iniciarmos nossa ação caritativa em casa, com nossa família, nossos amigos, nossos empregados domésticos, parentes e conhecidos, colegas de trabalho. Só depois é que temos condições para pensar em praticar a caridade. “Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos têm ofendido” (Mateus 15, 23).

Renato Lima de Oliveira
16º Presidente Geral da Sociedade de São Vicente de Paulo

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