Há uma passagem bíblica que segue “indecifrada” até os dias de hoje. Tem a ver com o “espinho na carne” ao qual São Paulo se referiu na 2ª Carta aos Coríntios. Ele assim se expressou: “E para que não me ensoberbecesse com a grandeza das revelações, foi-me posto um espinho na carne, mensageiro de Satanás, para me esbofetear, a fim de que não me exalte. Por causa disto, três vezes pedi ao Senhor que o afastasse de mim. Então, ele me disse: ‘A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza’. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo” (2ª Coríntios 12, 7-9).

Estudiosos da Bíblia afirmam que esse “espinho na carne” poderia ser tanto uma doença física quanto algo relacionado ao aspecto espiritual. De qualquer maneira, esse tal espinho era um incômodo na vida de Paulo; mesmo assim, apesar de ter pedido a Deus, por três vezes, que ficasse livre do sofrimento, ele aceitou aquela situação, entregando-a ao Senhor como prova de amor, obediência e fidelidade.

Para alguns, o espinho seria uma infecção recorrente nos olhos; para outros, a circuncisão (pois Paulo era judeu, mas havia se convertido a Cristo e precisava conviver com aquele símbolo judeu). A Bíblia não explica o que, em verdade, seria esse espinho.

O que este trecho das Sagradas Escrituras tem a ver com o trabalho vicentino? Na nossa caminhada, encontramos muitos espinhos, os quais, às vezes, podem atrapalhar nossos projetos e desejos. Vamos começar falando pelo “espinho da pobreza”, que deixa os assistidos em situação de fragilidade e vulnerabilidade. Como fazer para extirpar o “espinho da pobreza” do seio da sociedade desigual em que vivemos? Oh espinho terrível de se combater! Como gostaríamos de exterminar esse espinho, mas temos que conviver com ele, amenizando, pelo menos, os efeitos desastrosos perante os que mais sofrem.

Outro “espinho na carne” que temos dentro da SSVP é a postura inadequada de certos dirigentes que se envaidecem com os cargos assumidos, como presidente de Obra Unida ou de Conselho. Lamentável alguém pensar assim, pois na verdade somos meros instrumentos do Senhor para que Ele, Deus, realize os prodígios por nossas mãos e talentos. Somos “servos inúteis” e não podemos ser presunçosos por nada que façamos, pois Jesus mesmo nos orientou: “Quando tiverdes feito tudo o que vos foi ordenado, dizei: ‘Somos servos inúteis, fizemos o que devíamos fazer’(Lucas 17, 7-10).

Por fim, outro “espinho na carne” que acompanha os próprios vicentinos é a questão da indiferença e da acomodação que muitos têm em relação aos Pobres. Não podemos deixar que as visitas domiciliares caiam na rotina, e que nossa ação se restrinja à doação de bens materiais e gêneros alimentícios. Também não podemos ficar buscando desculpas para nossas faltas às reuniões e aos eventos vicentinos, pois isso nos enfraquece espiritualmente. A mortificação – uma das virtudes vicentinas – tem tudo a ver com essa incomodidade. Portanto, peçamos a Deus que mantenha esse espinho na nossa carne, para que nunca nos esqueçamos de que somos ferramentas Dele.

A nossa esperança reside na promessa de Deus para com os Pobres e para com aqueles que ajudam os Pobres: “Com equidade, Ele julgará os Pobres. Ele libertará o indigente que suplica, e o Pobre ao qual ninguém quer ajudar” (Salmo 71). Deixamos algumas perguntas para reflexão na Conferência: Qual é o espinho que mais atrapalha no dia a dia da Sociedade de São Vicente de Paulo? É o espinho externo (ligado aos assistidos, como a miséria e a desigualdade) ou o interno (referentes aos relacionamentos dentro das Conferências e Conselhos)? Ou são os espinhos espirituais e físicos?

Renato Lima de Oliveira
16º Presidente Geral da Sociedade de São Vicente de Paulo

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