FILADÉLFIA, 5 de agosto de 2026 — O Escritório da Família Vicentina anunciou a publicação de uma declaração em nome de toda a Família Vicentina mundial sobre a grave crise humanitária que se tem desenrolado nos últimos dias na fronteira de Ceuta, cidade autónoma espanhola situada na costa norte de África.
A declaração, intitulada «Nenhuma fronteira está acima da vida humana», manifesta uma profunda dor por aqueles que faleceram ou continuam desaparecidos e apela à proteção e assistência imediatas daqueles que sobreviveram às perigosas travessias, prestando especial atenção às crianças e aos adolescentes.
Nos dias 30 e 31 de julho de 2026, dezenas de milhares de pessoas provenientes de Marrocos tentaram entrar em Ceuta por terra e por mar. Muitas procuraram chegar à costa a nado, contornando os molhes fronteiriços e expondo-se a correntes perigosas, ao esgotamento, ao medo e à desorientação. Dezenas de pessoas perderam a vida, outras continuam desaparecidas e numerosas famílias prosseguem a busca por notícias dos seus entes queridos. Entre aqueles que chegaram a Ceuta encontravam-se numerosas crianças e adolescentes, alguns deles não acompanhados.
A declaração coloca a pessoa humana no centro de todas as respostas. Embora reconheça as complexas circunstâncias políticas, económicas e diplomáticas que envolvem esta crise, rejeita firmemente qualquer tentativa de utilizar as pessoas migrantes como instrumentos de pressão, moeda de troca ou armas em disputas entre Estados, instituições ou forças políticas.
«A vida humana não pode ficar subordinada a estratégias geopolíticas, cálculos eleitorais, interesses económicos ou disputas fronteiriças», afirma a declaração. Rejeita igualmente a linguagem que apresenta indiscriminadamente as pessoas migrantes como uma ameaça, um fardo ou um inimigo, alertando que as palavras que desumanizam criam condições para a indiferença, a discriminação e a violência.
O Escritório da Família Vicentina pede às autoridades espanholas e marroquinas, às instituições europeias, aos organismos internacionais e a todas as entidades envolvidas que garantam uma resposta coordenada, transparente e plenamente humanitária. Entre as principais medidas solicitadas encontram-se:
- O resgate e a proteção de todas as pessoas cuja vida se encontre em perigo, tanto em terra como no mar;
- A busca ativa das pessoas desaparecidas e a identificação digna daqueles que faleceram, juntamente com informação e acompanhamento para as suas famílias;
- O acesso imediato a água, alimentos, alojamento seguro, cuidados de saúde e apoio psicológico, vestuário, higiene, serviços de interpretação e aconselhamento jurídico;
- A proteção especializada das crianças, das mulheres grávidas, das pessoas doentes ou feridas, das vítimas de violência ou de tráfico de pessoas e de todos aqueles que se encontrem em situações de especial vulnerabilidade;
- O acesso efetivo aos procedimentos de asilo e proteção internacional, com informação compreensível, assistência jurídica e todas as garantias processuais;
- O respeito pelo princípio da não repulsão sempre que possam estar em risco a vida, a liberdade ou a integridade física de uma pessoa;
- A avaliação individual de todas as decisões de regresso, evitando expulsões coletivas ou precipitadas que careçam das garantias adequadas;
- Apoio material e humano suficiente para Ceuta e para as suas comunidades de acolhimento;
- A criação e o alargamento de vias migratórias legais e seguras; e
- Uma cooperação internacional duradoura que enfrente as causas profundas da migração forçada e proteja o direito das pessoas a permanecerem nos seus próprios países com paz, segurança e dignidade.
A declaração dedica uma atenção particular às crianças, afirmando que «uma criança migrante é, antes de tudo, uma criança». Exige alojamento seguro, alimentação, cuidados de saúde, apoio psicológico, assistência jurídica e tutela efetiva para todos os menores. As decisões relativas ao seu futuro devem basear-se em avaliações individuais rigorosas e no superior interesse da criança. Os repatriamentos nunca devem ser coletivos ou automáticos.
Fundamentada no Evangelho e no carisma vicentino, a declaração recorda à Família Vicentina mundial que acolher, proteger e acompanhar as pessoas migrantes não constitui uma atividade cristã secundária, mas uma forma concreta de reconhecer e servir Cristo. Convida os ramos, as comunidades, as associações, as instituições educativas, as paróquias, as obras sociais, os voluntários e os membros da Família Vicentina a rezar, apoiar as respostas humanitárias, acolher as pessoas migrantes nas suas comunidades, combater a xenofobia e a desinformação e promover uma cultura do encontro.
A declaração conclui com uma afirmação categórica: «Nenhuma fronteira está acima da vida humana; nenhuma situação administrativa anula a dignidade de uma pessoa; nenhum interesse político justifica a utilização dos pobres; nenhuma criança deve ficar desprotegida; nenhuma sociedade pode considerar-se justa se responder ao sofrimento com indiferença».
A declaração completa pode ser baixada em diferentes idiomas nos links a seguir:



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