Nós, vicentinos e vicentinas, temos uma enorme responsabilidade social, uma vez que sabemos, na realidade, os problemas que afligem a milhares de famílias Pobres. Poeira, lama, chuva, vento, calor, tudo isso sentimos juntos com eles, face a face, quando nos deslocamos para as visitas ou no momento em que os acompanhamos em algumas missões especiais quando somos chamados. Ao agirmos assim, cada vez mais perto deles, passamos a gozar de mais apoio na comunidade, abrindo portas e servindo de exemplo para muita gente.

Estar face a face com os Pobres não significa apenas levar bens materiais em nossas visitas domiciliares que ocorrem todas as semanas. É ser a voz deles. Significa ajudá-los na tarefa de denunciar as injustiças, de obter um emprego, de lutar por qualidade na educação, de ter saúde e, acima de tudo, de estimulá-los a praticar a bela fé católica de forma madura e comprometida. Somos muito mais que “entregadores de sacolas de gêneros alimentícios”, e sim advogados dos Pobres.

Para estar face a face com os Pobres, não podemos “terceirizar” nossa ação vicentina. Fico triste quando ouço que uma Conferência, em vez de distribuir discretamente suas cestas de alimentos na casa dos socorridos, passou a pagar a passagem de ônibus para os assistidos irem buscar a sacola de alimentos, na sede da paróquia.

Se o confrade ou a consócia não fizerem sua parte, com espírito missionário e desinteressadamente, indo aos Pobres com devoção e vocação, nunca serão um vicentino de fato, e nunca estarão face a face com os excluídos. Estarão assim praticando um “vicentinismo artificial” ou “meramente frio”.

Só quando estamos face a face com os desamparados é que podemos sentir os sabores e os olores do povo sofrido, que luta com dificuldade para sobreviver, enfrentar os problemas familiares, a situação de abandono na saúde e tantas outras singularidades que só nós conhecemos.

Pessoas que ajudam em campanhas natalinas ou outras esporádicas, ao longo do ano, ou políticos, a cada quatro anos, dificilmente compreenderão e perceberão o que ocorre nas periferias, nas favelas, nas invasões e nas comunidades Pobres. Eles não têm o DNA[1] da Caridade no sangue, nem o selo da humildade na testa.

Recordo-me algumas passagens bíblicas que conduzem os escolhidos de Deus ao serviço dos Pobres. No Livro do Eclesiástico (capítulo 35, 15-22), há uma bela passagem bíblica que diz muito aos corações de nós, vicentinos: “O Senhor (…) escuta as súplicas dos oprimidos. A prece do humilde atravessa as nuvens. Quem serve a Deus (…) será bem acolhido, e suas súplicas subirão até as nuvens”.  Ou seja, esse trecho retrata as seguintes situações: que a oração do pobre chega até aos ouvidos de Deus, que quem serve ao Altíssimo será recebido no céu e que suas súplicas também serão ouvidas. Existem maiores promessas divinas que essas?

Portanto, queridos confrades e consócias e demais companheiros da Família Vicentina, estamos no caminho certo. Quanto mais próximos estivermos dos Pobres, mas próximos estaremos de Cristo. Deixo uma pergunta para reflexão na Conferência: “Para mim, o que é estar face a face com os Pobres?”.

[1] DNA é a sigla em inglês para o “ácido desoxirribonucleico” (deoxyribo nucleic acid), isto é, consiste num composto orgânico cujas moléculas contêm as informações genéticas que  coordenam o desenvolvimento e funcionamento de todos os seres vivo (Wikipedia). Ao dizer que certas pessoas “não têm o DNA da caridade”, o autor está fazendo uma alegoria pela qual sem a “caridade no sangue”, qualquer gesto poderá ser confundido com mera filantropia.

Renato Lima de Oliveira
16º Presidente Geral da Sociedade de São Vicente de Paulo

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