Todos nós sabemos que o trabalho primordial das Conferências Vicentinas é a assistência material e espiritual das famílias humildes que são socorridas pelos confrades e consócias. Mas além desse aspecto, não podemos nos esquecer de que a própria Sociedade de São Vicente de Paulo é uma instituição familiar acima de tudo.

Primeiramente, ela foi idealizada e estabelecida num ambiente de família. Bailly e os demais fundadores mantiveram o clima doméstico no seio do grupo, pois aqueles jovens eram, antes de tudo, amigos, e conviviam na mesma pensão, e “adotaram” Bailly e a esposa dele como seus pais e mães morais.

Além da fundação “familiar” da SSVP, não podemos negar que a forma como as Conferências evoluem também tem a ver com as sociedades familiares. Explicando melhor: nossos dirigentes “saem” das Conferências; é lá que eles são formados, preparados e forjados. A preparação dos sucessores na estrutura da SSVP acontece dentro das Conferências, assim como nas empresas familiares.

Outro aspecto interessante, que só vemos em sociedades familiares, é a transmissão do conhecimento, da ética e dos valores do grupo. É evidente que existem os cursos de capacitação para o aperfeiçoamento dos procedimentos. Mas a garantia de que os novatos irão seguir no mesmo caminho trilhado por Ozanam e seus companheiros é uma responsabilidade dos atuais confrades e consócias.

Também é de responsabilidade dos atuais membros da SSVP a manutenção fiel às origens da entidade, assegurando que a entidade possa crescer sem perder o “marco zero” da fundação colegiada. Manter-se fiel às origens, à vocação e ao carisma da entidade é dever de todos os vicentinos, e tal “legado” deve ser “levado” a todos aqueles que ingressarem no grupo, posteriormente. É como se existisse uma “governança invisível” dentro da empresa familiar chamada SSVP!

As sociedades centenárias, como a nossa, são assim; possuem essas características, algumas delas intuitivas. É difícil até falar sobre o assunto, pois na verdade tais procedimentos acontecem com tanta naturalidade que nem nos damos conta de que somos uma “empresa familiar”. Voltando ao assunto dos dirigentes, é igual quando o dono da empresa, geralmente o pai da família, prepara seus filhos para, no futuro, conduzirem os destinos daquela empresa.

Assim também ocorre na SSVP. Quando um confrade ou uma consócia assume a presidência de uma Conferência, de um Conselho (não importa o nível hierárquico) ou de uma obra assistencial, a partir do primeiro dia de mandato já deve se preocupar com a sucessão. É preciso preparar bons nomes para que, quando a eleição chegar, não haja descontinuidade nas ações vicentinas. Por isso, devemos escolher dirigentes responsáveis e, acima de tudo, servidores.

Toda empresa tem seu negócio. O “negócio” da SSVP é a caridade. Não percamos o rumo. Às vezes, algumas pessoas recém-ingressadas introduzem ideias e posturas diferentes ao carisma vicentino, e seguramente esse tipo de influência externa trará danos. Não estou aqui defendendo que a SSVP seja uma instituição fechada; peço, apenas, que qualquer inovação seja muito bem refletida, e que os mais experientes possam analisar se tais aprimoramentos estejam afinados com nossas origens. Por exemplo, no campo da assistência, muitos vicentinos são obcecados por obras sociais, esquecendo-se do trabalho precípuo da Conferência que é a visita domiciliar, a maior obra social da SSVP! Não devemos perder nossas forças nem “diversificar” nossa atuação católica em “outros negócios” que não a caridade.

Portanto, valorizar e respeitar o “espírito primitivo” da Sociedade de São Vicente de Paulo é a chave da manutenção da entidade, sempre em unidade com a Igreja e a favor dos Pobres, os preferidos de Deus. Que sejamos uma família, dentro e fora da Conferência!

Renato Lima de Oliveira
16º Presidente Geral da Sociedade de São Vicente de Paulo

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