Há inúmeras passagens bíblicas sobre justiça e caridade, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Para nós, vicentinos, pode parecer uma tarefa relativamente simples acessar esse conteúdo, meditá-lo e praticá-lo no cotidiano de nossas ações em favor dos mais necessitados. Contudo, justiça e caridade, embora consideradas palavras quase sinônimas, são distintas, e veremos, a seguir, as sutis diferenças entre tais conceitos.

Podemos citar aqui alguns exemplos de parábolas deixadas por Jesus a respeito da caridade, como a do Bom Samaritano, o relato do Juízo Final e a estória que retratou Lázaro e o rico, entre várias outras, riquíssimas de ensinamentos. É sempre bom ressaltar que as virtudes humanas só conseguem ser vivenciadas, em plenitude, se praticadas com caridade. Se isso não ocorrer, apequenam-se e até se anulam. São Paulo nos exortou: “Sem caridade, eu nada sou” (1ª Coríntios, 13).

E sobre a justiça, também há outro arsenal de trechos bíblicos que nos estimulam a refletir, como o célebre “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua Justiça, e todas as coisas vos serão acrescentadas” (Mateus 6, 33). A Doutrina Social da Igreja discorre amplamente sobre esses dois temas: a caridade e a justiça. Podemos afirmar, inclusive, que as duas são a essência do Evangelho.

Quem pratica a caridade, conforme diz a Bíblia, não pode ficar apenas na “comoção do coração” (sentir pena ou dó), mas deve agir. Ter caridade é também colocar-se no lugar do outro, sentir o sofrimento do outro como se fosse seu, e ajudá-lo a libertar-se dessa situação de desamparo, abandono e desesperança. Jesus sempre estendeu a mão a quem Dele precisava. Assim devemos nós, vicentinos, ser: a mão amiga dos mais humildes.

Muitos confundem caridade como sendo ações meramente assistencialistas, ou entendem justiça como “punição”. Recordemos que a caridade possui uma tríplice dimensão: assistencial, promocional e libertadora. A “caridade assistencial” vê o Pobre como indigente e procura atender de imediato as necessidades básicas dele: “Estive com fome, com sede, sem roupa, doente (…). Todas as vezes que fizerdes isso a um dos menores de meus irmãos, é a mim que o fazeis” (Mateus 25, 35-45).

Já a “caridade promocional” vê o Pobre como marginalizado, fora do progresso e do bem-estar da sociedade. Dedica-se a dar-lhe condições de aprender a pescar, gerar renda, integrar-se no processo do desenvolvimento e combater as causas que impedem de crescer. Por fim, a “caridade libertadora” vê no Pobre um eterno explorado no seu trabalho. Procura despertar no cristão a solidariedade na luta pelos direitos dos excluídos. No modus operandi vicentino, temos que estar sensíveis a identificar essas três facetas da caridade em nossas atividades.

A opção especial pelos Pobres, ratificada em várias Conferências Episcopais da Igreja, aponta que o empenho pela justiça social e pela defesa dos direitos humanos é uma exigência não só contida na Bíblia, mas, acima de tudo, é condição fundamental para a vida em sociedade. Na espiritualidade vicentina, já nos dizia São Vicente de Paulo que “sem justiça não há caridade”. Na mesma linha recordou Santo Agostinho: “Onde não há caridade, não pode haver justiça”.

São Vicente é, de fato, mais conhecido pela humanidade pelas ações de caridade (visíveis) que empreendeu, mas ele tinha uma espécie de “trabalho de bastidor” junto aos governantes daquela época, procurando mobilizá-los para acolher os Pobres e tirá-los da situação de penúria em que viviam. Ele atuava nas duas esferas: a prática da caridade e a busca da justiça.

Também o principal fundador da Sociedade de São Vicente de Paulo, o bem-aventurado Antônio Frederico Ozanam, era recorrente ao salientar que “justiça e caridade andam juntas”. Acredito que nenhum vicentino, nos dias de hoje, tenha qualquer dúvida ao meditar sobre essa frase, pois sabemos da importância em manter os dois temas em contínua unidade e correlação.

A caridade católica é aquela visão dos Evangelhos na qual todos somos irmãos. Não há pessoas melhores nem maiores do que nós; todos somos iguais. Essa visão nos ajuda a entender o conceito de justiça social, muito adotado pela Igreja.

A verdadeira caridade não pode resumir-se a gestos de assistência paternalista. Para o cristão autêntico, a caridade é um amor desinteressado pela pessoa humana em razão da sua dignidade. É amor ao próximo, imagem e semelhança de Deus. Baseia-se na mais profunda fraternidade de todos os homens pela participação na vida de Deus. A caridade tem uma função social enquanto complementa as exigências da justiça, sem, contudo substitui-la.

A justiça social tem como interesse específico o bem-comum coletivo, acima dos interesses particulares. É a dimensão social da justiça: cobrar do poder público a assistência aos mais Pobres, lutar por emprego, moradia, saúde e educação; e mitigar os efeitos negativos dos sistemas econômicos que geram concentração de renda e mais desigualdade social.

Portanto, queridos vicentinos, tenhamos sempre em mente que a essência do Evangelho reside no binômio “caridade e justiça”, e que podemos, aqui na Terra, praticá-las sempre, para a honra e glória do Senhor, e para socorrer principalmente aos que mais precisarem. Para reflexão na Conferência, comente a frase: “Ser bom é fácil; difícil é ser justo” (Victor Hugo, escritor francês, autor de “Os Miseráveis”).

Renato Lima de Oliveira
16º Presidente Geral da Sociedade de São Vicente de Paulo

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