Nas Sagradas Escrituras, encontramos inúmeras passagens nas quais Jesus indica o caráter missionário como algo essencial, praticamente indissociável à prática do fiel. Jesus Cristo é, por excelência, o modelo de missionário. “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio” (João 20, 21) é o trecho bíblico clássico que sedimenta a vocação missionária da comunidade e de todos aqueles que se intitulam “cristãos”. E nós, vicentinos, quando estamos em missão, devemos seguir essa regra de vida: somos enviados aos Pobres com a responsabilidade e o privilégio de “representar” Jesus no acolhimento dos humildes.

Jesus é o modelo de como os missionários devem despojar-se de si mesmos para anunciar o Reino. Deus confiou a Cristo a missão de realizar a aliança definitiva do Pai com a humanidade. Isso fica explícito na declaração de Jesus na sinagoga (Lucas 14, 18): “O espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Nova aos Pobres”. O que Jesus fez, no tempo dele, é justamente aquilo que hoje chamamos de “evangelização e promoção humana”, características fundamentais do trabalho de todo missionário e vicentino.

Outra importante demonstração de missão foi o gesto de Jesus no lava-pés, uma noite antes de morrer. Cristo lavou os pés dos discípulos como um sinal concreto da missão que Ele veio pregar e deixar como exemplo para seus seguidores: “Como eu vos fiz, façais vós também” (João 13, 15). Esse símbolo representa o serviço que todo missionário deve efetuar quando em atividade, em nome do Senhor. Conosco, vicentinos, vale o mesmo: o serviço da caridade é, por essência, um serviço missionário, pois os “enviados” são identificados como imitadores do Salvador e o jeito destes de lidar com as pessoas deve ser semelhante ao jeito de Jesus, especialmente junto aos marginalizados e mais necessitados.

Também não podemos nos esquecer de que o estilo missionário de Jesus sempre foi caracterizado pela vida em comunidade e pela ação dos discípulos no meio do povo. Os milagres de Jesus e as orientações aos apóstolos eram realizados com bastante público ao redor do Mestre, para que os exemplos fossem bem disseminados e o testemunho assimilado. Assim também deve ser a prática vicentina, quando os confrades e consócias exercem o ministério social nas comunidades carentes, envolvendo os Pobres e ajudando-os efetivamente a superar a situação de miséria, sofrimento, abandono, solidão e indiferença social.

Além de tudo isso, a maneira como Jesus conversava com as pessoas, nas ricas parábolas, era algo que chamava a atenção, pois o povo judeu estava acostumado com pregadores mais conservadores, que liam o Antigo Testamento sem contextualizar a mensagem divina. Por outro lado, Cristo preferia contar histórias e dar exemplos de vida cotidiana para que todos pudessem, rapidamente, compreender e absorver a palavra amorosa de Deus. Como vicentinos, também devemos ser modestos nas palavras e objetivos nos conselhos para, de fato, conquistarmos a amizade dos Pobres.

Contudo, o maior “pedido” de Jesus também foi de nuance missionária: “Ide pelo mundo inteiro e proclamai o Evangelho a toda criatura” (Marcos 16,15). Esse comando de Cristo toca forte os corações de todos os vicentinos, pois nossa atuação não pode se reduzir à mera entrega de gêneros alimentícios ou outros bens materiais. A forma de agir dos vicentinos deve incorporar a dimensão da evangelização dos Pobres e o jeito de ser de Cristo Jesus, pois assim estaremos seguindo fielmente ao estilo missionário do Redentor.

Além disso, o estilo missionário de Jesus deve se confundir com a maneira de a Igreja atuar, bem como com a forma de nossa querida Sociedade de São Vicente de Paulo agir, quer seja nas visitas domiciliares, quer seja nas obras assistenciais espalhadas pelo mundo afora. Tudo gira em torno de Jesus, o verdadeiro modelo da missão. A vida de Cristo, o ministério d’Ele na Terra, sua morte e paixão, ressurreição e glorificação, tudo isso aponta em direção à missão integral como meio pelo qual a Igreja prolonga a missão de Jesus.

Em síntese, Jesus deixou-nos um legado de como devemos agir quando estivermos em missão. O missionário é aquele que anuncia o Evangelho e dá testemunho de Cristo. É aquele que está disposto a sair, lançar-se em terras estranhas e até inóspitas. O missionário, embora desconhecido e silencioso, oferece, no altar do anonimato, a vida e as forças que tem. É também aquele cuja voz e ação entusiasmam e agregam, acolhendo os abandonados e excluídos. A face do missionário espelha os traços de um Deus cheio de amor, misericordioso e compassivo. Ele reza na presença do Pai, mas também vai às ruas na luta por uma sociedade justa e solidária.

Portanto, se quisermos ser considerados verdadeiros cristãos, precisamos adotar o “estilo missionário” praticado por Jesus, que veio anunciar o reino de Deus, libertar os cativos, curar os enfermos e salvar os humildes com coração contrito. Se quisermos ser considerados verdadeiros vicentinos, também precisamos incorporar o “estilo missionário” de São Vicente de Paulo e de nossos fundadores, servindo e evangelizando os Pobres do Senhor.

Renato Lima de Oliveira
16º Presidente Geral da Sociedade de São Vicente de Paulo

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