Para ser vicentino é necessário exercitar algumas posturas muito comuns nas atividades de voluntariado, como disponibilidade de tempo, prestação de serviço às pessoas mais necessitadas e trabalho não remunerado, entre outras tantas características. Esse comprometimento é algo fundamental para manter viva a chama vicentina, e acima de tudo, fortalecer o trabalho socioespiritual que realizamos.

Contudo, a sociedade civil é bastante complexa, muito egoísta, bem materialista e fortemente alienada. Por todos esses elementos, está sendo cada vez mais difícil conseguir pessoas voluntárias para ingressar na Sociedade de São Vicente de Paulo. Ser vicentino é estar frequentemente compromissado com o próximo.

Vivemos numa “modernidade líquida”, como disse o sociólogo polonês Zugmunt Bauman. Segundo ele, a sociedade é fluida e, assim por dizer, líquida: vai para um lado, vai para outro, não tem um formato definido. São pessoas que, de vez em quando, participam de alguma manifestação de rua, fazem um “ativismo de sofá” pela internet ou ainda são aguerridos nas campanhas eleitorais. Mas, na verdade, não possuem uma “serenidade constante” que as permitam participar de uma entidade social de maneira efetiva. Estão, em geral, insatisfeitas com tudo e com todos.

A sociedade líquida choca-se de frente com a dedicação, o compromisso e a fidelidade de um vicentino na luta contra a pobreza, a miséria, as desigualdades e as injustiças. Pode até ir contra alguns princípios da Igreja e do arcabouço legal de um país.

Por outro lado, as pessoas que formam a “modernidade líquida” são muito críticas, e podem ajudar bastante no aprimoramento das ações empreendidas no seio da SSVP. Por exemplo, a sociedade líquida é mais dada a aspectos virtuais, digitais, transparentes e eficientes. Desta forma, uma Conferência Vicentina pode ser considerada por essa geração como uma iniciativa excessivamente conservadora, fechada, com resultados lentos e pouco aberta ao diálogo.

É claro que sabemos que a nossa bela SSVP não é assim; mas não podemos negar que, às vezes, dependendo do lugar, da cultura e da composição dos membros das Conferências, é possível sim que nossa entidade não consiga atrair adequadamente essa “sociedade líquida”. Não defendo, nesta crônica, que mudemos nossa forma de agir. Não! Mas não custa nada nos adaptar ou pelo menos ouvir os anseios dessa safra jovem que vem ocupando as ruas e as redes sociais, fazendo muito barulho.

Que bom seria se eles pudessem também “fazer barulho” na defesa dos mais humildes, dentro de uma Conferência! Que bom seria se essa sociedade líquida, com todas as suas limitações e dissabores, tivesse espaço na SSVP para poder analisar, criticamente, a maneira de atuar dos confrades e consócias, apontando falhas e sugerindo melhorias.

No caso da juventude, que geralmente é contestadora por natureza, é comum que os mais velhos façam comentários (um pouco irônicos e até preconceituosos, às vezes) sobre o caráter volúvel da mocidade, colocando essa característica como um aspecto negativo. Será que realmente ser contestador é um aspecto negativo? Será que não foram, justamente, em momentos de forte contestação social, que as nações evoluíram e se desenvolveram? Nunca fomos jovens?

Portanto, não podemos “ver com maus olhos” o jeito de ser das pessoas que integram a “modernidade líquida” de Bauman, pois, na verdade, é a realidade de nossa sociedade. As Conferências precisam estar atentas para esse fenômeno antropológico e, quem sabe, à nossa maneira, acolher os representantes dessa corrente dentro de nossa Sociedade, ainda que alguns ruídos possam ocorrer.

Não podemos transformar a SSVP num clube fechado, para que apenas nós disfrutemos dos benefícios espirituais e materiais que abundantemente recebemos de Deus. Temos que nos abrir ao novo, ao contestador, ao diferente, sem medo de receber críticas. É preciso conciliar as tendências da sociedade moderna sem, contudo, romper como espírito primitivo que uniu os cofundadores que idealizaram a Sociedade de São Vicente de Paulo. Que a modernidade líquida, com suas imperfeições, possa renovar a SSVP!

Renato Lima de Oliveira
16º Presidente Geral da Sociedade de São Vicente de Paulo

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