Quando da visita do confrade Michael Thio, 15º presidente geral da Sociedade de São Vicente de Paulo, a Belo Horizonte, para participar do Encontro Internacional da Juventude Vicentina (2013), indaguei-o quais seriam, na opinião dele, as características fundamentais para ser um bom dirigente vicentino. Ele meditou, voltou os olhos para mim e disse: espiritualidade, compromisso e paixão. Concordo inteiramente com o líder maior da SSVP, e pretendo, nesta crônica, refletir um pouco sobre as três condições citadas por ele.

No quesito espiritualidade, não há como negar que um bom dirigente vicentino deve não só ser enamorado pela espiritualidade vicentina, mas acima de tudo transpirar essa espiritualidade em todos os gestos, ações e medidas que tomar. Ele deve demonstrar que conhece e que vive as cinco virtudes vicentinas com emoção (humildade, mansidão, mortificação, zelo e simplicidade), e que as considera em todos os momentos da atuação como líder, não só no ambiente vicentino, mas em todos os aspectos da vida.

Essa espiritualidade contamina os que os cercarem, entusiasma os que o rodearem e contagia aqueles que estiverem ao lado dele, especialmente os da estrutura administrativa (diretoria). Nas palestras que proferir e nos discursos que escrever, a forte espiritualidade vicentina, que brota da herança que nos foi deixada pelos santos (Vicente, Ozanam, Rosalie, Frassati, Luísa, entre tantos outros), deve se sobressair em tudo. A mensagem da caridade precisa ser regada constantemente, sobretudo nos tempos modernos em que tal mensagem é abafada pelos contravalores e pela filosofia de morte. Por isso, quanto mais espiritualizado for o dirigente, melhor conseguirá lidar com eventuais dificuldades.

Outro item fundamental para ser um bom dirigente vicentino é estar comprometido com a entidade e seus regulamentos, com os assistidos e suas necessidades, com a estrutura e seus desafios. Esse comprometimento deve ser total, integral e completo: uma vocação quase sacramental. Esse compromisso está lastreado nas seguintes características: disponibilidade de tempo, diplomacia na resolução de conflitos e visão de futuro. Um dirigente deve sempre entregar, em melhores condições, aos sucessores, o Conselho ou a Obra que lideraram. Isso dá aquela sensação de “missão cumprida” e, acima de tudo, de valorização dos novos talentos.

É preciso dizer ainda que o vicentino que ocupar funções administrativas deve contar com o apoio incondicional de sua própria família, pois sem o respaldo familiar, o trabalho de liderança poderá se resumir a uma mera gestão administrativa, embora meritória, mas sem o “sabor” nem o “espírito” vicentino, pois a base da ação solidária é a valorização da família – as assistidas e as nossas próprias.

Por fim, a terceira e talvez a mais importante característica de um bom dirigente vicentino seja a paixão com a qual lida sobre os temas da instituição. Paixão, neste caso, significa “vibração”, “amor efetivo” e “entusiasmo contagiante”. Um presidente de Conselho ou de obra vicentina que não tiver paixão naquilo que empreender está fadado ao fracasso. É aquele “brilho nos olhos” que nem sempre encontramos nas pessoas que cruzam nossas vidas. Da mesma maneira que é triste ver um professor sem vocação, é lamentável constatar a existência de dirigentes vicentinos sem paixão. Portanto, só um verdadeiro apaixonado pela SSVP conseguirá exercer bem a tarefa de dirigente.

Das três características citadas anteriormente (espiritualidade, compromisso e paixão), qual a mais importante? Seria possível um presidente de Conselho ocupar um encargo dessa natureza sem possuir essas condições? As lideranças vicentinas estão preparadas para assumir as diversas atribuições dentro da estrutura da SSVP?

Renato Lima de Oliveira
16º Presidente Geral da Sociedade de São Vicente de Paulo

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