Aprofundando o debate sobre o tema da justiça, vamos primeiramente conceituá-la para depois analisá-la em relação ao pensamento social de Ozanam. “Justiça” é uma palavra com grande capacidade de significados. Ela é usada em vários setores da sociedade, não só nos tribunais ou no mundo legislativo (onde as leis são feitas). É inegável que a justiça é particularmente importante no contexto atual, em que os valores da pessoa humana, de sua dignidade e de seus direitos elementares vêm sendo ameaçados e vilipendiados.

A justiça está intimamente relacionada ao comportamento ético das pessoas. A ideia originária de justiça acompanha o homem em toda a história, mas adquire características distintas em cada época. Segundo o conceito mais tradicional, justiça consiste na “constante e firme vontade de dar a cada um o que é seu”. É o reconhecimento respeitoso do “outro” como pessoa. Parece uma definição simples, mas não o é, especialmente na sociedade consumista e egoísta em que estamos inseridos.

Aristóteles, na obra “Ética a Nicômaco”, ao discorrer sobre doutrina da justiça, classificou-a como “a virtude central da ética”. Ele chegou a afirmar que a justiça era a “virtude mais completa e a mais importante de todas”. Cícero, outro pensador grego, destacou que “o esplendor da virtude tem o ponto máximo na justiça e, por ela, os homens são chamados de bons”.

Santo Agostinho dizia que “onde não há justiça, não existe sociedade”. Para ele, a justiça era a virtude que se realizava, no terreno humano, por meio do amor que é devido a Deus e ao próximo. A multiplicidade de formas de injustiça, segundo o santo, serviria para identificar a diversidade de formas de se fazer justiça.

São João Paulo II denunciava, com frequência, uma dubiedade entre o discurso e a prática. Para ele, no mundo moderno, é comum se professar publicamente o amor à justiça; por outro lado, tal virtude não é verdadeiramente praticada, diante do imenso número de “injustiças” cometidas nos vários setores da sociedade (educação, saúde, segurança, corrupção, política, economia, trabalho etc.).

O conceito de justiça também está muito relacionado à questão da “garantia das necessidades” que é efetivada ao se assegurar as condições mínimas de subsistência a todo ser humano (não só no aspecto material, mas também laboral, psicológico e até espiritual).

A concepção bíblica sobre a justiça é pouco diferente. Nas Escrituras, justiça é, antes de tudo, de origem “divina” e remete à fidelidade a Deus. No Antigo Testamento, o termo justiça qualificava a ação de Deus, que é justo por excelência. O termo justiça conserva o mesmo significado no Novo Testamento, mas nas cartas de Paulo encontramos uma faceta mais calcada em bondade de Deus, na misericórdia e na fé.

A ideia cristã de justiça garante que o amor ao próximo não é encontrado num ambiente de competição, nem em si mesmo (egocentrismo), mas o verdadeiro amor consiste em amar os outros. Portanto, “viver justamente” significa amar nossos semelhantes de uma maneira que os ajude a viver bem, permitindo-lhes amarem-se a si próprios, amarem seus semelhantes e amarem a Deus.

Já a origem do termo “justiça social” remonta ao século XIX, em contraponto aos excessos do capitalismo liberal, que reduzia o ser humano a uma mera peça de reposição industrial. Ozanam foi um dos precursores da Doutrina Social da Igreja ao denunciar o desrespeito e o descumprimento dos contratos de trabalho, além das condições precárias da vida urbana moderna que se avizinhava.

Uma frase célebre de Ozanam já apontava as linhas do pensamento daquele homem santo e visionário. Frederico Ozanam dizia que “a justiça já supõe muito amor”. A prática do amor, da caridade e da justiça, na espiritualidade vicentina, manifesta-se na defesa das causas dos Pobres, na luta pela justiça social e na incansável busca da dignidade da pessoa humana. Falando de outra maneira: impossível, para um vicentino, falar de justiça sem levar em conta o amor, que representa a base da ação humana.

Esta frase de Ozanam chama a atenção para a prioridade que ele dava, naquela época, à construção da justiça na sociedade: a luta contra a fome, os salários indecentes dos trabalhadores, a falta de direitos sociais básicos como a aposentadoria ou férias, precárias moradias localizadas nas periferias de Paris, entre tantos desafios. A realidade vivida por Ozanam é a mesma das Conferências Vicentinas nos tempos presentes. E a indignação de Ozanam, ao enfrentar tais dificuldades, deve ser, também hoje, a nossa indignação.

Frederico Ozanam entendia que a luta pela justiça era também um ato de caridade e de amor para com aquelas pessoas que sofriam todo tipo de opressão; quer dizer, quem se ocupa em implantar a justiça na Terra já está praticando o amor. Pregava Nosso Senhor Jesus Cristo: “Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça” (Mateus 6, 33).

Ajamos, firmes, para alcançarmos a justiça social, mas nunca nos esqueçamos de levar a Palavra de Deus aos nossos irmãos mais sofridos, excluídos, vulneráveis e injustiçados.

Renato Lima de Oliveira
16º Presidente Geral da Sociedade de São Vicente de Paulo

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