É sempre oportuno falar sobre a caridade. Mas, o que de novo podemos abordar sobre essa temática, ainda mais para um público tão especializado no assunto, como os Vicentinos? Vamos iniciar por uma passagem bíblica das mais adequadas para este contexto. São Paulo, após listar os diversos carismas (como a sabedoria, a ciência e o dom de curar), assim se expressou: “Aspirai aos dons superiores. E agora, ainda vou indicar-vos o caminho mais excelente de todos. Ainda que distribuísse todos os meus bens em sustento dos Pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, de nada valeria” (1ª Cor 12-13). Sem caridade, nada somos. A caridade é eterna, divina e jamais acabará, como nos assegura o apóstolo.

A caridade é uma das três virtudes teologais (além da fé, pela qual conhecemos a Deus; e a esperança, pela qual confiamos plenamente em Deus). Por ela, encontramos o verdadeiro amor de Deus. Contudo, a caridade não pode ser vista unicamente sobre o viés da virtude, mas como sendo uma maneira de expressar o amor que Deus tem para cada um de nós, e, sobretudo, para com os Pobres.

Em outras palavras, para manifestar a caridade em nossas vidas, além de viver em “constante estado de graça”, devemos demonstrar concretamente o amor ao próximo. Tanto São Vicente de Paulo, Ozanam e os demais santos da Família Vicentina seguiram a Nosso Senhor Jesus Cristo, bem de perto, tendo a caridade como a essência de suas vidas cristãs.

São Vicente, em toda a vida dele, se dispôs a ajudar o próximo, pois ele se colocava como um “instrumento da graça de Deus”. Não foi à-toa que ele foi proclamado pela Igreja como “Patrono Universal da Caridade”. Seu coração sempre esteve puro e disposto a ajudar. E eis o santo caminho deixado por Vicente para os dias de hoje, cuja cultura do egoísmo e do consumismo procura destruir o divino. São Vicente não foi apenas um homem sábio, mas também um santo caridoso, que obteve com gestos simples a sua própria conversão e a sua santificação, deixando inúmeros exemplos para nós, seus “filhos espirituais” do século XXI.

Também Ozanam foi um homem “todo caridade”, desde a infância até a morte. Como ele se parece com São Vicente de Paulo! Ozanam sempre conseguiu enxergar no rosto dos Pobres a face de Cristo, e sempre procurou deixar que Cristo fosse refletido na face dos próprios Vicentinos. Talvez esse seja o maior desafio que Ozanam propõe em nossas vidas. Ele foi uma criança caridosa, um jovem caridoso e um adulto caridoso. Foi caridoso em 100% de sua breve existência entre nós. E ele nos deixou muitas inspirações, todas baseadas em ações concretas pelos Pobres.

A caridade se manifesta por vários caminhos. Porém, a mais efetiva e transformadora é por intermédio da ação. O oposto da caridade, sob essa ótica, é a omissão e a crítica vazia (aquele tipo de gente que só fala mal e ainda não faz nada para mudar a realidade). Assim, para amar a Deus na pessoa dos Pobres precisamos adotar uma postura e uma mística da ação. Caridade é ação. Caridade é agir.

Uma das passagens bíblicas mais claras sobre a efetividade da caridade cristã está na alegoria usada por São Tiago (Tg 2, 14-17): “Meus irmãos, se alguém diz que tem fé, mas não tem obras, que adianta isso? Por acaso a fé poderá salvá-lo? Por exemplo: um irmão ou irmã não têm o que vestir e lhes falta o pão de cada dia. Então alguém de vocês diz para eles: ‘Vão em paz, se aqueçam e comam bastante’; no entanto, não lhes dá o necessário para o corpo. Que adianta isso? Assim também é a fé: sem as obras, ela está completamente morta”. E São Paulo exorta: “Tomemos por couraça a fé e a caridade, e por capacete a esperança da salvação” (1ª Ts 5,8).

Pertencer à Sociedade de São Vicente de Paulo ou aos demais ramos da Família Vicentina é uma bênção, pois temos a oportunidade de vivenciar a caridade perante a pessoa do Pobre, com disposição, alegria, verdade, solidariedade e esperança na mudança de estruturas. Precisamos combater a preguiça, o desânimo, a omissão, a indiferença e a desesperança. Nosso objetivo deve ser confiar sempre na Providência Divina.

Não podemos encerrar esta reflexão sem falar do aspecto mais importante da prática da caridade: a busca da santificação. Fazendo caridade, estamos também nos fortalecendo espiritualmente para a nossa salvação. Além das ações concretas em favor do Pobre, juntamente com uma vida de oração e de frequência dos sacramentos, atingiremos nossos objetivos pessoais e coletivos.

Por fim, caros leitores, nunca é demais recordar que a “obra mais importante” do Senhor Deus foi a criação do ser humano, à semelhança Dele. Assim, em primeiro lugar, amar a Deus significa “amar suas obras”, ou seja, amar o próximo, nossos irmãos. Devemos amar a nós mesmos e aos outros com a mesma intensidade que amamos a Deus. E se realmente conhecemos e amamos a Deus, o desdobramento natural desse amor é a caridade!

Renato Lima de Oliveira
16º Presidente Geral da Sociedade de São Vicente de Paulo

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