Uma empresa privada, e até órgãos públicos, quando elaboram seus planejamentos estratégicos, costumam definir a missão, seus valores e a visão de futuro de suas entidades. A missão tem a ver com a razão de existir da instituição; os valores, com as crenças; e a visão de futuro é como ela quer ser vista ou percebida pela sociedade civil daqui a cinco ou dez anos.

No caso da Sociedade de São Vicente de Paulo, sua missão e visão estão contidas na Regra, documento criado em 1836 pelos fundadores da entidade e que, após poucas atualizações, chega ao século XXI com o mesmo espírito primitivo que guiou nossos antepassados.

A missão da SSVP é a mesma: buscar a santificação pessoal de seus membros, por meio da oração e da visita aos que sofrem, praticando a Caridade evangélica pregada por Nosso Senhor Jesus Cristo. Seus valores são a humildade, a Caridade, a simplicidade (essas três, virtudes de São Vicente de Paulo) e desapego do próprio parecer. Sua visão de futuro é transformar a realidade excludente, construindo um mundo mais justo e menos desigual.

Esse trabalho só se atinge por meio das Conferências, que são grupos nos quais os católicos leigos se reúnem semanalmente para debater as melhores estratégias na ação caritativa perante os Pobres, e onde o aprimoramento espiritual de seus membros se efetiva. A missão vicentina,ao contrário do que possa parecer, começa na Conferência, para depois florir na casa do pobre.

Para que o vicentino possa desenvolver-se integralmente, precisa aperfeiçoar sua fé, suas práticas de Igreja, sua forma de ver o mundo, sua reflexão sobre as desigualdades sociais e sua maneira de propor saídas para a exclusão, o sofrimento, o abandono, o esquecimento, a miséria e a falta de Deus num ambiente secularizado. Essa é a missão do vicentino: ser sal na Terra, ser luz no mundo, ser tempero entre as pessoas, ser o broto que germina em solo árido, ser o diferencial no deserto das adversidades humanas.

A missão vicentina de hoje é a mesma daquela dos tempos de Ozanam, Bailly, Irmã Rosalie, Le Prevost e os outros visionários que fundaram a Sociedade de São Vicente de Paulo em 1833. Estamos nos referindo à Caridade e à promoção integral dos assistidos. Para que essa ação seja eficiente, é preciso que os confrades e as consócias se preparem melhor para os desafios do mundo contemporâneo, em que a pobreza tem outras facetas (como a exclusão digital) e que as mazelas continuam perseguindo o povo de Deus.

Ao mesmo tempo, quando ouvimos a palavra “missão” logo a associamos a desafio, meta a ser atingida, ação orgânica com finalidade específica. Assim, a missão na Sociedade de São Vicente de Paulo é a força que move seus Conselhos, suas Obras Sociais e suas Conferências, buscando a superação da miséria, a transformação da realidade atual e a santificação de seus membros.

Quase sempre associamos a missão vicentina com a vocação vicentina, e isso é plenamente compreensível, pois nossa vocação é seguir Jesus Cristo, dando testemunho de Seu amor libertador, “servindo na esperança” (lema do Conselho Geral Internacional), ajudando a aliviar o sofrimento ou a miséria e promover a dignidade e integridade do homem em todas as suas dimensões (tópicos contidos no Item 1.3. da Regra Internacional).

É muito importante que orientemos bem os aspirantes que frequentam nossas Conferências e estão “degustando” o que é ser vicentino. Eles precisam saber da missão de nossa Sociedade e não terem uma visão distorcida de nossa atuação. Às vezes, alguns novatos confundem a SSVP com clubes de serviço (Rotary ou Lions), com algumas ONGs que atuam no campo social, com a Cáritas, com a “Pastoral Social” ou ainda com apenas um grupo de voluntários que entrega cestas básicas aos Pobres. Mas, na verdade, essas não são elementos da verdadeira missão vicentina!

A missão vicentina, assim, é basicamente o encontro com o pobre, em seus casebres e cortiços, em lares em que quase não é força para um sorriso, levando-lhes uma palavra amiga, uma doação material e um conselho cristão. Por esse tipo de trabalho, a SSVP é única. Não se parece com nada que existe por aí. Para esse encontro (que também podemos considerar uma espécie de sacramento, pois é o encontro do vicentino com Jesus na pessoa do pobre), o Divino Espírito Santo exerce papel preponderante, guiando a visita e tornando-a instrumento de paz, alegria, aconselhamento e libertação.

Da mesma forma, a missão vicentina está intrinsecamente ligada à missão evangelizadora da Igreja, por seu testemunho visível em ações e palavras, a favor dos Pobres, buscando uma ordem social mais justa e equitativa que conduza à cultura da vida e à civilização do amor (Regra Internacional, Item 7.2.). Eis aqui a nossa missão!

Renato Lima de Oliveira
16º Presidente Geral da Sociedade de São Vicente de Paulo

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