O que constitui a vida da Sociedade de São Vicente de Paulo é a visita domiciliar aos pobres; não é suficiente frequentar regularmente as reuniões […].

A visita, para obter dela os frutos que se tem o direito de esperar, deve ser pontual, respeitosa e fraterna […]. Devemos evitar, especialmente com os pobres de Paris, uma familiaridade que para eles pareceria arrogância […]. Obteremos resultados mais precisos se conseguirmos nossas visitas sejam fraternas, se aceitarmos com sinceridade suas mostras de amabilidade, se por nossa parte lhes confiarmos nossas dores e nossas tristezas, pedindo as esmolas das suas orações […].

Quando nosso Senhor disse: “Sempre haverá entre pobres entre vocês”, não é uma maldição que legou aos seus discípulos, mas uma palavra de esperança e de amor […]. Foram doze os pobres a quem se lhes concedeu converter o mundo; são os filhos dos pobres que levam às nações infiéis a luz da fé. Não temamos, então, ver como essa onda de proletários aumenta a cada dia que ameaça inundar e afogar a civilização moderna. Se tivermos conseguido que esses pobres sejam cristãos, eles cobrirão o mundo para regenerá-lo.

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Frederico Ozanam, Excerto das atas das assembleias gerais, 1 de fevereiro de 1836 a 19 de março de 1848, Archivos S.S.V.P., reg. 103.

Reflexão:

  1. Este discurso de Frederico, que pronunciou em 12 de dezembro de 1847, nos recorda a dupla finalidade da Sociedade de São Vicente de Paulo: associar-se para apoiar uns aos outros na caminhada da vida cristã, e colocar a associação ao serviço dos pobres.
  2. Ozanam coloca a ênfase em visitar a casa dos pobres e como deve ser: pontual, respeitosa, fraterna. Os pobres devem ser tratados com o maior respeito e atenção, como o próprio Jesus Cristo, lembrando as palavras de São Vicente de Paulo.
  3. E, além disso, aceitando com sinceridade sua bondade e compartilhando com eles nossas tristezas, pedindo-lhes que rezem por nós. A humanização da caridade significa que os pobres não são rostos invisíveis, personagens anônimos a serem atendidos, mas irmãos com os quais compartilhamos o que somos e o que temos. Esta é a verdadeira dimensão da caridade, do ponto de vista vicentino: o encontro com os pobres é o encontro com o irmão com quem partilhamos e recebemos muitas vezes mais do que o que nós damos; e, além disso, é o sacramento de Cristo na terra: um crente não pode deixar de ver Jesus Cristo quando encontra os pobres.
  4. A dimensão que Frederico dá ao texto evangélico que ele cita (Marcos 14,7) ilumina a reflexão anterior: Deus nos encontra nos pobres. Temos a graça de poder encontrar Jesus Cristo quando nos encontrarmos com os pobres!
  5. Há uma frase neste texto que requer uma explicação: “são os filhos dos pobres que trazem a luz da fé para as nações infiéis”. Frederico teve conhecimento dos missionários que viajaram para missões distantes, graças ao seu trabalho na Obra da Propagação da Fé. Ele sabia que era precisamente entre os pobres que surgiam a maioria das testemunhas que queria pregar o evangelho em terras longínquas e que ainda não conheciam Jesus Cristo, “infiéis” na linguagem da época. Mais uma vez, os pobres são aqueles que evangelizam.
  6. A última sentença mereceria um desenvolvimento muito mais extenso. Lembre-se que Frederico vivia o início da revolução industrial, e muitos trabalhadores (proletários) trabalhavam em situações indignas, incapazes de sair de sua pobreza com o escasso salário que conseguiam por trabalhar por um enorme número de horas, em situações de total desamparo e pouca segurança Em seu tempo, os trabalhadores faziam parte dos empobrecidos, como ainda acontece hoje em tantas partes do mundo. Ozanam, que toda a sua vida queria mostrar o poder civilizador do cristianismo e sua influência sobre o progresso da sociedade, acredita firmemente que servindo e evangelizando os pobres – proletários neste caso –  é a única maneira de poder “regenerar o mundo “. Novamente vemos que o cristianismo está nas mãos dos pobres e eles são os autênticos depositários da fé, algo que também ouvimos de São Vicente de Paulo.

Questões para o diálogo:

  1. Como é o meu trato com o pobre? É pontual, respeitoso, fraterno? Ofereço-lhes o mesmo respeito e atenção que eu daria ao próprio Jesus Cristo?
  2. Compartilho minhas preocupações com os pobres? Peço-lhes que rezem por mim?
  3. Trabalho para melhorar a situação do empobrecido, lutando contra-correntel? Conto com os pobres para fazer isso? Sou consciente de que isso faz parte da Mudança Sistêmica que a Família Vicentina promove? Aplicamos isso na nossa realidade local?

Javier F. Chento

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