Assim como no passado colocavam-se os Pobres nos chamados Hospitais Gerais, atualmente são encarcerados em paredes imateriais e psicológicas, erguidas com burocracia, condicionamento, averiguações e confrontações. A mendicância envergonha e atemoriza os cidadãos. As cidades são o coletor final de todos os Pobres, porque a cidade tem mais recursos públicos e privados para solucionar suas necessidades. Afinal, nos núcleos urbanos sempre se pode mendigar.

No tempo de São Vicente de Paulo e de Santa Luisa de Marillac encarcerava-se à força no chamado Hospital Geral, uma espécie de prisão, reformatório, para toda classe de meliantes, vagabundos, mulheres da vida, crianças de rua e os mendigos, considerados antissociais. Cada cidade criava um Hospital Geral para amenizar a presença deles nas ruas. Ocultava-se o “lixo humano” para que não ficasse à vista, mas não atacavam as causas que produziam tamanha injustiça.

Para os governantes os únicos causadores de sua miséria eram os mesmos Pobres: preguiçosos, viciados e deficientes, e por isso era preciso prendê-los para que trabalhassem e não cometessem abusos. Naquela sociedade cristã acrescentava-se a razão ética: a imensa maioria destes Pobres viviam como pagãos sem religião, nem moral. Ao encarcerá-los, poderiam ser evangelizados. Teriam horas de trabalho, de catequese e orações. Prender pessoas que rejeitavam a ordem estabelecida, religiosa, social e familiar era a oportunidade de “reforma-los” para que pudessem ser reintegrados na sociedade.

O “aprisionamento”, em teoria, era voluntário. Mas quem não ingressasse lhe era negado qualquer ajuda social. E em pouco tempo era encarcerado à força. Os Hospitais Gerais, uma mistura de prisão, fábrica, reformatório e clausura não atingiram seus objetivos, e foram reduzidos à asilos de idosos. Primeiro, porque os mesmos Pobres não aceitavam tal tratamento. Segundo, porque pessoas humildes os consideravam de sua categoria e os libertavam. Terceiro, porque os acolhidos oneravam os estabelecimentos. Quarto, porque era contra a liberdade das pessoas que podiam viver como quisessem sem bagunçar com ninguém.

Mas, fracassou sobretudo, porque a mendicância não era uma questão de encarcerar os Pobres, senão uma consequência do sistema social. Nem sequer pretendiam inseri-los na sociedade. O que pretendiam era que os marginalizados assimilassem o sistema tal qual estava constituído. O que era impossível porque as causas eram inapropriadas e rejeitadas pelos próprios excluídos.

O asilo do Nome de Jesus.

Vicente de Paulo e Luisa de Marillac, pensavam que os ricos são somente os depositários dos bens que Deus lhes confiou. Um burguês de Paris entregou a Vicente de Paulo a quantia de 100 mil libras para que empregasse pelo bem dos Pobres. Depois de muito refletir e rezar, decidiu-se por fundar um asilo onde acolheriam idosos sem recursos, mendigos e velhos trabalhadores. Até então não existia a previdência social. Foi um acerto ou uma inspiração divina, já que os anciãos saiam de casa sem saber se regressariam depois de entrar, pois era comum que os Pobres, idosos, pessoas sofridas, morressem nas ruas.

Os padres da Missão (padres vicentinos) tinham uma casa bem grande chamada o Nome de Jesus e São Vicente a reformou para que pudesse acolher 20 homens e 20 mulheres. O dinheiro restante aplicou para que rendesse o suficiente para sustentar os 40 idosos que ingressavam de forma voluntária e eram livres para permanecer ou sair quando quisessem. Se o Nome de Jesus foi visto com simpatia pela sociedade e desejado pelos idosos, deve-se ao gênio organizador de Santa Luisa. Pegou um papel e escreveu: vantagens de se fazer a obra, inconvenientes e maneira de funcionar. E resolveu instalar teares, a indústria de tecido da época.

Mas aqueles mendigos e idosos não tinham um ofício e nem estavam acostumados a trabalhar, e assim ela idealizou uma estratégia: “encontrar pessoas de boa condição que tivessem profissões e que quisessem passar por Pobres, mesmo que fosse por seis meses para ensinar aos outros o que sabem”. Eles trariam aqueles mendigos e idosos ao conhecimento de uma profissão. “A dificuldade estaria – acrescenta – em que para estas pessoas talvez fosse necessário dar-lhes um pouco de vinho ou de cerveja”. E isto era perigoso, pois indicaria desigualdade e colocaria suspeitas das manobras que haviam feito. Encontrou pessoas honradas que se fingiram de mendigos e os catalogou por ofícios. Na questão econômica não se iludia; sabia que “para pôr em pratica o projeto não poderia olhar os gastos… Tinha muito claro que no primeiro ano teria pouco rendimento” (E 76).

Escreve num papel o orçamento de cada pessoa ao ano: gastos de comida com vinho – 105 libras, mais 6 libras de luz e fogo. Existem outros gastos: 6 libras de roupa, 30 da cama nova e lençóis e mais 4 libras para as cobertas, bacias, etc… (D 549). Calcula o custo do material e o trabalho de cada peão, oficial ou mestre, pois todo aquele que trabalha, por insignificante que seja seu valor, deve cobrar, ainda que seja em forma de vinho (D 551). Para baratear os custos, pesquisou nas comunidades, os lugares e épocas em que se poderia comprar os materiais com melhores preços (C 427).  E para não enganar os trabalhadores e nem ser enganada, pergunta a Vicente de Paulo quais eram os salários pagos em Paris, suspeitando que, fora de Paris a jornada terá um preço mais baixo (C 443).

Ao examinar o balancete de entradas e saídas, se pergunta porque os donos de teares entram em falência. Encontra as causas: “os trabalhadores custam muito, os alugueis das casas são altos daquelas famílias que tem filhos”. Nenhuma destas causas ocorre na casa Nome de Jesus. Mesmo que não tivesse lucro valia a pena empreender esta obra para dar emprego a muitas pessoas. Acolheram até jovens sem trabalho: “aos que a necessidade e a ignorância levavam a ofender a Deus” (D 550).

Em março de 1653, inaugurou a Casa dos Pobres Trabalhadores como a chamava Luisa. Após alguns meses de funcionamento, o êxito era perceptível e foi assinado o contrato de fundação, homologado pelo Arcebispo de Paris. Os padres da Missão, ficaram encarregados do serviço religioso e São Vicente lhes deu alguma catequese (X, 85). Os pedidos de acolhida indicam que os idosos viviam felizes. De tempo em tempo, Luisa controlava e levava pessoalmente a contabilidade de todos os teares e do trabalho de cada trabalhador com uma minuciosidade e clareza que ainda hoje nos surpreende.

As voluntárias da Caridade olhavam convencidas e entusiasmadas o resultado e concluíram que São Vicente era capaz de criar um Hospital Geral para todos os mendigos de Paris. Eram perto de 40 mil! Mas a iniciativa despertou desconfiança entre os pessoas influentes na corte. Os funcionários, os membros do Parlamento e a Companhia do Santíssimo Sacramento pensavam que uma obra com tais dimensões só poderia ser executada por homens e homens revestidos de uma missão oficial. Criticaram o projeto e tentaram parar as obras de Salpetrière. Não conseguiram, mas conseguiram que uma obra tão significativa ficasse sob a tutela do Estado.

Benito Martinez, CM

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