Sections

Reflexão : o “stress da pobreza” e a mudança sistêmica

stress-facebookA cultura da pobreza caracterizada por um sentimento de marginalidade, de dependência e de exclusão encontraria sua origem no coração da família, desde a primeira infância. Com efeito, nas Ciências Sociais e comportamentais existe um “stress da pobreza” desde a idade mais jovem. Durante cerca de nove anos, Dan Torrington, membro de “Voice of the Poor – Western Region” (a “Voz dos Pobres” é o ramo da advocacia da Sociedade de São Vicente de Paulo) tentou analisar este flagelo social através de suas ações para a Sociedade e tentou responder à seguinte questão: como explicar a reprodução da pobreza e como remediar a esta flagelo maior de nossas sociedades?

“os pobres são pobres porque eles são preguiçosos e não querem trabalhar”

Nós todos ouvimos esta frase em suas diversas versões como explicação para a pobreza. No entanto, as pesquisas em ciência comportamental indicam que o stress produzido pelo acúmulo de faltas relativas às necessidades fundamentais explicam melhor a pobreza de longo prazo. Quando eu entrei na Sociedade de São Vicente de Paulo e fazia minhas primeiras visitas em domicílio, eu dediquei poucas reflexões às razões pelas quais uma pessoa ou uma família estavam em uma situação desastrosa. Meu objetivo era a crise diante dos meus olhos. Não me veio jamais ao espírito que a pobreza era um domínio de pesquisa científica. Nove anos mais tarde, eu tenho uma compreensão maior da pobreza e eu sei que os vicentinos têm um papel importante a exercer para aliviar este fardo.

Ruby Payne, educadora americana e autora do livro intitulado “Um quadro para compreender a pobreza”, define a pobreza além da representação que nós fazemos de emblema (i.é,a falta de recursos financeiros). Os recursos relacionais, mentais, espirituais, afetivos, físicos, culturais são mais importantes, segundo ela, que o elemento financeiro. Paradoxalmente, Ruby Payne coloca este último como o menos crítico.

Gary Evans, psicólogo, pesquisador e professor na Universidade de Cornell nos Estados Unidos define uma conexão entre o meio ambiente físico, a saúde e o bem-estar de uma criança. Durante 16 anos, ele conduziu projetos de pesquisa medindo o impacto do meio (em todos os seus aspectos) no qual uma criança cresce, e sua saúde mental à longo prazo. A pobreza e a falta sentida desde a primeira infância causa marcas indeléveis de má saúde mental na criança e acentua o stress ao longo dos anos

Segundo seu estudo, os fatores de risco ligados ao contexto ambiental de uma criança desde uma idade jovem são: o barulho, a qualidade do habitat, a promiscuidade com os vizinhos, a falta de qualidade do ensino nas escolas frequentadas, a exposição frequente à cenas violentas, ligada à escassez de recursos familiares (limitando os lazeres culturais), uma estrutura familiar instável, as mudanças regulares de domicílio, as mudanças frequentes de parceiros entre os pais. A instabilidade emocional e o stress engendrados desde a primeira infância são devidos à falta de uma estrutura familiar equilibrada e à angústia dos pais, transmitida aos filhos, de não poder satisfazer as suas necessidades e de não poder lhes oferecer um futuro sereno.

Frédéric Ozanam, fundador da Sociedade de São Vicente de Paulo, nos lembra que a questão da pobreza é bem mais complexa do que nós podemos acreditar. Se contentar de assistir uma pessoa pobre sem compreender as circunstâncias e fatores que os levaram até a sua atual condição será apreender o problema através de um prisma muito artificial.

Ele defende o estudo mais profundo dos fatores desta pobreza para melhor responder a ela, lutar contra ela, e permitir a melhora das condições de vida das pessoas marginalizades no longo prazo. Este é o princípio da Mudança Sistêmica que defende a ideia de ir além da melhora das necessidades imediatas das pessoas vulneráveis colocando em prática programas e políticas que tenham como finalidade tornar as pessoas capazes de identificar elas mesmas as causas de sua pobreza.

Para ler o artigo completo (em inglês): http://famvin.org/en/2016/01/15/the-stress-of-poverty-and-our-role-as-advocates/

Fundo: ssvpglobal.org

One Response to Reflexão : o “stress da pobreza” e a mudança sistêmica

  1. Jony Fevereiro 21, 2017 at 11:45 am #

    O vosso site é muito bom.
    Eu e a minha namorada adoramos o vosso trabalho.
    Continuem por muitos mais anos.

Deixe uma resposta